Trivia Philosophica

Ciência - Filosofia - Religião

jul

26

QUANDO PARAR DE LER

por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Quando chegamos naquela fase da idade e da vida em que, dentro do assunto que sempre nos interessou, não nos parece estar aprendendo o que gostaríamos ou nos interessando pelo que lemos.

Além disso, ler é pensar o que outro pensou e escreveu. Para que nos serve? Em que contribuimos? Todo ato intelectual tem que ser uma contribuição para si mesmo ou para outros. Não sendo uma coisa nem outra, ler pode ser uma completa falta do que fazer de útil para si ou para outro.

Não lendo temos mais oportundade de gerar algo próprio, um pensamento possivelmente jamais pensado. Deve ter sido raciocínio semelhante que levou Robert Musil (bibliotecario) a escrever “The man without qualities”. Qualquer livro que se leia é uma distração: dis+tract que é “sair da pista”, isto é, sair do real ou da realidade. Tivéssemos nós o necessario treinamento para pesquisar em profundidade o próprio pensamento quase nada precisaríamos ler, depois de termos vivido seis décadas de auto-edificação.

Não sabemos quanto que o que lemos pode conflitar com o que poderíamos pensar sem ler no mesmo assunto. O cérebro tem, através do subconsciente, ínvios caminhos para chegar a resultados semelhantes ao que chegaríamos utilizando o consciente.

Um ótimo exercício e entretenimento de camadas intelectuais seria discutir o assunto do livro que não se leu. Umberto Eco estruturou “O Nome da Rosa” em torno de um livro perdido que nenhum dos personagens tinha lido, mas sobre o qual vários tinham pensamentos bem formados. Dado um assunto não-técnico a um adulto ele pode discutir um livro que o contém, como se o tivesse lido. Alguém disse que livros são como pessoas, que nos podem ser desconhecidas, ou de quem não ouvimos falar, ou apenas encontramos casualmente numa festa, mas jamais realmente conhecida.

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