por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.
SER NORMAL NÃO BASTA…
Estamos todos vivendo a síndrome de Alice no País das Maravilhas: temos que correr duas vezes mais rápido para ficarmos no mesmo lugar. É a síndrome do avanço: quanto maior, melhor; quanto mais avançado, menos atrasado; quanto melhor, melhor… Tomamos vitaminas para nos prevenir contra a possível ausencia delas em nossos alimentos normais; compramos computadores para nos tornarmos atualizados com a informática – que é um avanço; fazemos arriscados exercícios para garantir vida mais longa; deitamos nos divãs dos psicanalistas, para nos tornarmos mais felizes conosco mesmos; entregamos nossos estresses aos psiquiatras, para nos tornarmos mais ajustados; trabalhamos feito desesperados para fugirmos da pobreza iminente; enganamo-nos com qualquer curso de pós-graduação, para não sermos tomados como apenas graduados; enfim, fazemos qualquer coisa para irmos além do normal, para que não arrisquemos a sermos simplesmente normais.
Para entender essa louca demanda ao “além do normal” foram criadas varidíssimas especializações em todas as profissões e até em ocupações do dia-a-dia. O normal já não é bom para ninguém que atravessou o Rubicon da pobreza. Embora o “normal” seja escrito e entendido da mesma forma em pelo menos oito idiomas (Inglês, Francês, Alemão, Italiano, Espanhol, Suiço, Iidiche, e Português) parece não ser suficiente para a maioria das pessoas afluentes – as que buscam ser cada vez menos pobres. Ninguém mais quer a simples normalidade. Os maduros e maduras querem parecer mais jovens e recorrem a cirurgiões plásticos; todos querem pelo menos um curso superior, ninguém quer ser técnico ou apenas mão-de-obra qualificada; todos querem ser desenvolvidos e “aggiornados” em todos os aspectos.
As doenças fisiológicas, apesar de muito exploradas por especialistas em todos os órgãos, entradas e saídas, já não distinguem bastante. As doenças emocionais e comportamentais, apesar de hodiernamente menos conhecidas, estão se tornando mais exploradas, levando nossas preocupações além do que se considerava normal. Hoje, os incômodos de nossas mães e avós são de natureza psiquiátrica; chamam-se desordens disfóricas premenstrual ou PMDD. Tornaram-se suficientemente psicossomáticas para serem consideradas patológicas. Com elas, a linha entre o normal e o anormal se torna obscura. Tudo são anormalidades para um dado especialista!
HIPOCONDRÍACOS PRODUZEM ESPECIALISTAS
Alguém é hipocondríaco quando sofre de hipocondria, naturalmente. É uma dessas doenças quase psicológicas, que já começa em sentido figurado. Etimologicamente, hipocondria quer dizer abaixo da costela ou do abdomen. Acreditava-se que a manifestação de hipocondria nascia dessa região. Todavia, na acepção mais comum, diz-se que alguém é hipocondríaco, quando vive num mundo de doenças imaginárias que acaba por dar ao indivíduo uma melancolia acentuada.
A fuga da normalidade e da busca de especialidades médicas estão associadas com essas manifestações de doenças imaginárias. Acredito que a hipocondria é fomentada pela disponibilidade de especializações médicas. Como era no passado, haveria menos hipocondríacos se houvesse menos especializações disponíveis e propagadas pela midia para curar doenças imaginarias. O que se propõe é que os avanços da medicina trazem benefícios para uns poucos e preocupações com doenças inexistentes para muitos. Isso é bom para os avanços experimentais da Medicina, para alguns médicos e para os abundantes planos de saúde, que parecem pouco satisfazerem médicos e pacientes.
É preciso um urgente controle na natalidade da profissão médica. Apesar de todos conhecidos drawbacks, ainda é a profissão mais buscada nos vestibulares. Eles estão abundantes, porém ainda atuam como se fossem avis rara. Os planos de saúde estão se tornando uma indústria, não em função de suas eficiencias, mas em função da abundancia de especialidades médicas. Quem paga o pato desse irrealismo são os clientes, que precisam ser pacientes para que suas doenças reais não sejam tratadas como imaginarias e que estas sejam encaixadas nos menus dos planos para que o dinheiro não acabe antes da vida.
SER DOENTE É PRECISO
Problemas psicológicos que no passado resolvíamos sozinhos, hoje são focos de atenção clínica, antes nos Estados Unidos, hoje muito no Brasil. Segundo Sheila M. Rothman (College of Physicians and Surgeons of Columbia University) esses focos de atenção incluem: problema relacional com o sócio; declínio cognitivo relacionado com idade; privação de entes queridos; problemas acadêmicos; problemas ocupacionais; e problemas fásicos da vida. A diferença entre paciente e pessoa está virtualmente desaparecendo. É a criatividade levada aos extremos. Se você não for paciente de algum especialista há algo errado com você ou está precisando descobrir.
Eu nunca tive doença de qualquer tipo. Portanto, me falta empirismo. Só posso falar de minhas experiencias vicárias. Mas, tenho observado que quanto mais a Medicina avança mais cria doenças, que mais criam fármacos ou remédios. Intervenções médicas são às vezes mais buscadas que curas às doenças, por irônico que pareça. A sociedade, como a Natureza, busca equilibrio, uma dentro do seu determinismo social e outra do seu biológico. Havendo médicos e especialistas em abundancia, é preciso descobrir novas doenças para mantê-los ocupados. A mesma lei se aplica à indústria farmacêutica: uma linha de produtos novos para cada nova doença.
Mas, o que nos preocupa nesta Trivia é principalmente o problema da normalidade. Quanto temos que considerar nossos achaques bastante normais para recorrermos a médicos disponíveis? Parece que quanto mais se descobre novas categorias de doenças menor a diferença entre cura e ampliação das necessidades para se ficar melhor. A Natureza, como se sabe, abomina o vácuo. Se insistirmos em querer ficar melhor que o normal teremos que ser eternos pacientes.
Deixe seu recado