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fev

24

AMICUS CERTUS IN RE INCERTA CERNITUR

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Parafraseando Harry S. Truman, se você quer um amigo em Jaraguá do Sul, precisa ter uma cachorra virgem. Eu felizmente tenho a Sushie, que é uma persona-cane ou cane-persona. Tem a inteligencia de uma e a fidelidade de outra.

Aqui muitos se queixam de um imposto isolamento, que mais parece impossivelmente planejado. Alguns o interpretam como uma síndrome das cidades de aventureiros. Pelo que sei da historia de Jaraguá, para cá vieram mãos-de-obra necessárias às incipientes indústrias, com pouca ou nenhuma identidade com a cidade, que se formava. Brasilia, enfrentou a mesma síndrome nos primeiros vinte anos. Porém, Jaraguá já é mais que centenaria. Entretanto, os aventureiros das primeiras décadas propagaram seus espíritos. A maioria da população parece ser adventícia, chegada aqui ontem. Aqui, se você quiser comemorar com um almoço ou jantar o seu aniversario, terá que trazer amigos de sua cidade de origem.

Ponderei aos sentimentais conhecidos que não é socialmente bom ter muita intimidade com amigos, e talvez nem seja conveniente ter amigos. Estes, afinal, são no máximo dois, e não foram ainda testados. Não se sabe se são amigos certos nas situações incertas. É preferível ter a nosso lado uma ou duas pessoas que nos admiram pelo que fomos. Ninguém é amigo de ninguém sem passado comum. Em terras de aventureiros ninguém tem passado comum. E, sem passado comum, a amizade não floresce no moço nem se mantém no maduro. Sem passado comum não existe dependencia de dependencia, e sem esta, qualquer amizade é apenas contato social.

Penso que no passado, como sugere o aforismo do título, havia mais segurança que hoje nos relacionamentos sociais. Havia uma velada dependencia de dependencia. Hoje, os relacionamentos são marcados por relativa independencia. Somente pessoas fisicamente débeis e emocionalmente instaveis precisam da bengala da amizade, muitas vezes mentirosa. Pessoas proativas e fortes querem os amigos à distancia. Assim, não precisam ficar reparando os estragos da frequente convivencia, que naturalmente desgastam amizade.

Tolerancia, polidez, simpatia e um dado senso estético é tudo que precisamos de pessoas com quem convivemos. Portanto, é mais realista desejar companheirismo voltado para uma ação com começo, meio e fim. Não mais existe o amigo certo, na hora certa, com um fim certo para a pessoa certa. Pode ser até indesejável tê-lo. Hoje, vivemos na era da reciprocidade, que é mais uma medida de civilidade que de sentimentos. Talvez, por isso, em festas de vizinhos raramente há vizinhos!

fev

22

VIAJAR É VIVER DUAS VIDAS

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Quando eu fizer a última viagem atravessando o Rio Styx, o relato que mais gostaria que fizessem sobre mim é que eu estive nos lugares mais interessantes do Planeta, antes de deixá-lo.

Não há nada mais deprimente para se lembrar de uma inteligencia herdeira do Cosmos, que ter ela nascido, vivido e morrido, limitado na maior parte de suas atividades a alguns quilômetros quadrados, sem jamais ter ido buscar em lugares distantes sua identidade com o passado.

Mesmo quando a viagem é por mero prazer, ela nos faz penetrar o mundo através da Zoologia, Antropologia, Botânica, e das ciencias comportamentais. Ampliamos nossos horizontes, observando e experimentando o desconhecido, livres de responsabilidades e deveres do ramerrão, divertindo-nos e enriquecendo nossas personalidades. Ninguém jamais voltou exatamente o mesmo ao seu lugar de origem, após ter viajado longamente.

Viajantes habituais consideram quase impossível que uma pessoa sadia e economicamente estável esteja satisfeita com a vida que leva, sem estar ansioso em viver a história e as revelações das grandes civilizaçóes, que há muitos séculos surgiram, floresceram e mudaram, deixando-nos imperecíveis legados na aquitetura, escultura, e arte; em invenções científicas, filosofia e governo, costumes, e em comportamentos que deram certo.

A Geografia é a causa e o produto das viagens. Ela fascina os que desejam explorar e descobrir o misterioso mundo de ontem e de hoje, com suas esperanças, medos, ambições e deslumbrante modernidade, que os localistas estáticos apenas podem ver pela TV, cinema e internet. Diferentes climas, solos, montanhas e rios; monumentos, cidades e atrativos da natureza cosmpolita, que moldam a qualidade de vida, podem ser experimentados, tocados e vividos pelos que viajam para satisfazer essa elevada curiosidade.

A ciencia, a arte e a literatura estão também de mãos dadas com as viagens. O princípio da evolução natural foi gerado nas viagens que Darwin fez no Beagle, produzindo um dos mais lidos trabalhos em ciencias naturais. Depois da Biografia e Historia, os livros de viagens deveriam ser os preferido pelas mentes em desenvolvimento acelerado. Para as mentes já desenvolvidas, a literatura de viagens é de interesse e apelo perenes.

As viagens agregam valores salientes em nossa personalidade. Abrem-nos ainda mais a mente, dando-nos um ar de cidadão do mundo, de um cosmopolitismo que nos marca entre os localistas, causando a uns uma santa inveja, mas uma saudável emulação à maioria, que nos toma como exemplo do que desejam fazer quando puder.

De fato, quando as possibilidades econômicas são minimamente favoráveis, o melhor emprego das poupanças de uma laboriosa vida é viajar, com tempo para explorar o mundo, antes de se chegar na outra margem do Rio Styx.

Além dos livros de viagens, os guias, revistas e prospectos de turismo oferecem bastante precisas descrições de pessoas, lugares daqui e dalhures. Um dia, no futuro de nosso crescente desenvolvimento ecoturístico, as agencias de viagens terão agregadas a suas salas pequenas bibliotecas de livros e revistas de viagens para emprestar a todos os clientes, que planejam suas próximas férias. Excursionistas terão nas agências palestras ilustradas sobre o que observar e aprender nos lugares a que irão.

Viajar, para jovens, é um complemento necessário à educação; para mais velhos, um vívido reencontro com a experiencia; para homens, aventura; e para mulheres, romance. Todos ganham u´a mente estocada ricamente com os contatos inolvidáveis e com as imperdíveis associações das belezas e realidades do mundo, que jamais se pode viver em casa.

Somente se vive duas ou mais vidas, viajando muitas vezes.

fev

18

A ARTE DE DESCARTAR

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Descartar é para fins práticos escolher e atirar fora algo de um conjunto de algos semelhantes. Entendo que quanto mais ativa a mente mais ela descarta. A melhor expressão de sabedoria de viver não é escolher o que serve, mas saber convictamente o que não serve. Descartamos parentes, amigos e conhecidos, que reconhecidamente não nos servem. A satisfação de que alguém nos serve dura pouco. A descoberta parece ser um primeiro passo para descobrir em seguida quando já não nos serve.

Descartar é mais inteligente que escolher para ficar. A escolha do que queremos é mais abundante que a escolha do que não queremos. Somente sabemos bem o que descartar depois que muito escolhemos para guardar, cuidar e querer. Estes são atos animais. Descartar, mesmo no animal, é mais inteligente.

O divórcio do que se queria é evolutivo. Melhoramos quando descartamos o que não é mais o que desejamos. O mesmo se aplica à arte de ler seletivamente. Depois de algum tempo de estudos e leituras devemos aprender a pular páginas e até capítulos. Por mais inconveniente que seja o divórcio, quando tudo que interessa num relacionamento chegou ao fim, o descartar é um ato da mais aguda inteligencia. Não se descarta o desconhecido e desejado. Descobrir as inconveniencias mútuas que causam a continuidade é um convite ao descarte inteligente. O melhor descarte é aquele que a pessoa descartada não se percebe como tal. Daí, ser o descartar uma arte de poucos praticantes. É uma função de ignorar, de desatenção, que progride no mesmo ritmo da própria atenção.

Nenhum descarte que causa dor é um ato civilizado. Por isso, é mais inteligente esperar para ser descartado que descartar. O descarte perfeito desde cedo é desejado pelo descartante e pelo descartado.

fev

18

OS CACHORROS DE ESOPO

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Os cachorros de Esopo tendo visto algo parecido com um corpo morto flutuando no mar, e não sendo capazes de se aproximarem dele, começaram a beber a água do mar, esperando assim fazer uma passagem seca até o objeto de interesse. E tanto beberam que morreram estufados.

Assim certos homens públicos quando descobrem uma oportunidade de ganhar sem esforço se estufam com ninharias e nada conseguem do que pretendiam.

Há muitos cachorros de Esopo em nosso Brasil político. Desgastam-se para obter os votos que os elegeriam e, quando não conseguem, buscam um posto no governo para negrejar quem conseguiu.

Um político fracassado nos votos que ganha sem esforço um posto, um cargo, uma comissão no status quo governante é mais perigoso que um polvo. Nunca se sabe até onde alcançam seus braços.

Conheço um político duradouro em quatro legislaturas, que nunca teve um cargo executivo em nenhum governo. Atribuo o inconsequente fato à sua isenção das incoerencias do partido. Graças ao jornal “Fatos do Paraná” tenho acompanhado um pouco de suas lides. Continua altaneiro e favorecendo obras sociais de pouco impacto, mas muito necessarias.

Continua impoluto. Contrariamente aos cachorros de Esopo, não quer um caminho seco para buscar seus objetivos. Tem atravessado vários pântanos e não se molhou ou sujou uma vez sequer.

Todos temos um role model em qualquer atividade cívica. Uma vez cataloguei um pedreiro role model, um marceneiro, um sapateiro, um vendedor, um advogado, um deputado, um vereador. Gostaria de ter um modelo em cada profissão. Cheguei a iniciar a compilação. Acho que todos ativos deveriam fazer isso. Não importa onde, cidade, estado ou país é fundamental saber quem em nosso julgamento excede no que faz ou no que fez.

fev

12

CRENÇA EM DEUS

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Há uma clara diferença entre crer em Deus e crer na existência de Deus.

Cremos ou não cremos em alguém quando o/a conhecemos de forma direta. Não conhecemos Deus de forma direta, logo não podemos descrer ou crer nele.

Todavia, conhecemo-lo de forma indireta, através de suas percebidas obras na Terra e no universo. Isso torna clara a existência, não a entidade.

Crer na existência de Deus é uma necessidade para nossa elevação acima dos animais e das coisas, que são também suas criaturas, apesar de impedidas de imaginar sua existência.

Mais vale perceber a existência de Deus através de suas obras que crer nele por medo ou imaginação do seu extraordinário poder. Deus percebido é mais real que Deus crido. A percepção é da inteligência, a crença é do coração. A inteligência é universal e o coração é particular. Ninguém sabe o que sente o coração.

Portanto, é mais concreto e demonstrável crer na existência que crer na entidade que se não conhece.

Sendo Deus de incalculável abrangência é mais real percebido que crido. No meu contato com pessoas e coisas do mundo percebo a presença de Deus, sem precisar crer nele. A crença em Deus é um pressuposto de crer na sua existência.

fev

12

REDUÇÃO DE EXPECTATIVAS

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Uma grande sabedoria de viver é reduzir expectativas. Quando buscamos é fácil de conseguir.

A vida fica complicada quando nossas expectativas são mais altas que a nossa realidade. 0 real não tem alternativa, porque não muda com nossas esperanças, por mais razoáveis que sejam. Daí a irracionalidade das compras a prestações. Racionalmente, não devemos comprar a prazo o que não podemos comprar à vista. Pois, o poder de comprar é presente, mas o poder de poder pagar é futuro. E o futuro não existe hoje. A redução da expectativa nos dá mais poder vis-à-vis à realidade. Quando não esperamos muito, o pouco nos basta. O bastante é satisfaciente e nada pode ser melhor do que aquilo que nos satisfaz. O que nos satisfaz basta.

Reduzir expectativas é a forma independente de ser rico sem o ser. Quando não precisamos do que é impossível, o que é possível nos basta. Isto é redução de expectativa.

Ela nos causa alguma dor muito temporária, enquanto nos ajustamos á realidade. Esta tem seus prazeres bem estáveis. Expectativas não têm limites e são muito instáveis. A mente cria expectativas, mas a realidade tem poucas alternativas, e às vezes nenhuma. Adaptar-se ao real é uma forma de viver vitoriosamente. Porém, o real é difícil aceitar quando as expectativas vão muito além dele.

Há uma aceitação do real que é simples demais, mas que exige renúncias das coisas esperadas. Por exemplo, é preciso obter satisfação dos pequenos eventos que dão certo no dia-a-dia: quando se abre uma torneira ela jorra água transparente; quando se puxa um zíper ele não enrosca; quando se encontra uma pessoa amiga ela sorri; quando vamos dormir temos sono; quando despertamos a mente está alerta; quando ouvimos o coração, ele bate fortemente; quando nos encostamos ao corpo da mulher amada, ela não nos afasta; quando comemos e bebemos, digerimos; e quando esperamos o certo, o temos.

A realização das pequenas expectativas pode ser a fonte mais garantida da felicidade transiente. Uma expectativa irrealizável é a da felicidade estável. O homem feliz nunca espera o irrealizável. Mas, acredita que o esperado realisticamente seja realizável. Sabe que não é preciso sonhar, porém é preciso querer, reduzindo expectativas.

fev

12

SER AUTORIDADE SOBRE SI MESMO

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Prefiro ser autoridade sobre mim mesmo que sobre Arthur Shopenhauer – o filósofo que mais estudei, ou sobre qualquer outra personalidade histórica com quem me tenha familiarizado intensamente.

No contexto de um exame médico de rotina disse ao profissional que me atendia que somente aceitava conselhos, não ordens, sobre como cuidar de mim mesmo. Disse-lhe também que ninguém entende mais de mim que eu. É minha responsabilidade saber mais de mim do que qualquer outra pessoa.

A planície que atingi é linda, cheia de verdes e de encantadores vales; córregos e ribeirinhos, correm em todas as partes dela, às vezes distantes e imprecisamente vistos. Mas, eu preciso de novas montanhas para escalar. Montanhas que me dêm motivos para ser forte. Você não se torna uma autoridade sobre si mesmo, se consegue subir facilmente todas as montanhas da sua vida. O uso da inteligencia para reduzir o esforço não lhe dá autoridade. O que aprendemos tendo prazer para quase nada nos serve; o que aprendemos sem sofrer, esquecemos, não se incorpora em nós. O pior uso da inteligencia é acabar com as dificuldades necessárias para subir. O “conhece-te a ti mesmo” é o mais perfeito preceito e o mais difícil de seguir. Entretanto, a experiencia é a mestra de todos que desejam ser autoridades sobre si mesmos. Montaigne nos ensinou a usar a experiencia como instrumento do auto-conhecimento. Muitos trabalharam no mesmo tema. Mas, uma coisa é conhecer-se e outra ser autoridade sobre si mesmo. Mais uma vez o subjetivo (conhecer-se) cede a primazia ao objetivo (ser autoridade). Somos autoridades sobre nós mesmos quando ninguém pode conhecer-nos melhor. Nunca poderia dizer quão doce é resolver problemas que intimidavam minha alma como um fantasma demoníaco. Agora os resolvo da forma qual areias secas descem pela ampulheta; vagarosamente, mas sempre caindo. Alívio não é a palavra própria. É muito mais que isso – é um souflé de prazer. Para ser uma autoridade sobre mim mesmo preciso estudar-me diariamente como um dia estudei a tabuada e as regras de linguagem para o exame de admissão ao ginásio. Não basta saber, é preciso aplicar o saber.

fev

8

PROTEÍNA DAS ESTRELAS

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

É compreensível que alguém não adore peixe em qualquer de suas formas de consumo; é compreensível que alguém apenas goste de peixe, mas é incompreensível que alguém razoavelmente civilizado odeie comer peixe, principalmente catfish cozido ou frito.

O mundo está acordando para o consumo dessa proteína das estrelas. Notícia recente informa que as nossas secretarias de agricultura estão cuidando de povoar as represas e rios para pesca livre. A China produz em suas represas milhões de toneladas por ano. O povoamento completo de apenas a represa de Itaipu abasteceria todos os estados do Sul. O Brasil com mais rios que a maioria dos países poderia ser o PAÍS DO PEIXE.

Chega de carne de boi - proteína assassina. Nenhuma receita para uma alimentação saudável inclui carne de boi. De fato, a nova Food Pyramid a exclui totalmente. Foi um castigo para a humanidade quando se iniciou a domesticação desse monstrengo há 4 mil anos antes de Cristo. Está provado que é insólito comer diariamente carne de Bos da família Bovidae e desejar viver longamente. É um predador de tudo que temos de bom na terra. Ele veio para despopular o Planeta.

Mas, o meu assunto de hoje é o catfish. Quem ainda não o viu ou pescou não conhece o mais elegante e o mais ágil dos peixes de águas fundas. Existe em todos os tamanhos: os maiores chegam a medir mais de três metros e os pequenos variam de 5 a 10 cm. É o nosso bagre de origem africana, mas abundante nos Estados Unidos e no Canadá também, em que há muitas variedades. Seu ferrão espiga no dorso o torna presa difícil a qualquer tipo de predador.

Quando preparado adequadamente se identifica com o pintado e com o cação, mas é impossível confudi-lo com estes. Sua carne crocante o distingue. É lamentável que nossos pesque-pagueiros tenham desenvolvido maior habilidade para a criação de peixes de escamas e principalmente a impagável tilápia. Acredito que com o desenvolvimento da piscicultura, a carne de catfish será usada até para sanduiches, não só por que é mais resistente que a de atum e anchova, mas por que também não tem gosto peculiar, portanto apropriada para absorver qualquer tempero. Seria mais fácil para qualquer industrialização, pois quase não tem espinhas.É absolutamente o frango das águas!

Quem já comeu um catfish no molho à la Soeli perceberá que o peixe é a proteina ideal para a longevidade e esse Ostariophysi a mais deliciosa das carnes da água.

fev

3

ENVELHECENDO, PERDEMOS E GANHAMOS

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Em se envelhecendo é mais natural perder que ganhar. Quando começamos a enenvelhecer? Quando não mais importamos que estamos envelhecendo. A primeira qualidade que perdemos nesse processo natural de decadência é audácia. Adiamos até adiamentos. Nossa complexidade pessoal aumenta, mas, sem desafio à inteligencia. Nossa necessidade de dominação aumenta, mas cada dia somos menos respeitados. Nossa necessidade de estudar problemas diminui. Nada vale a pena. Ficamos cada vez mais impacientes com a ignorancia. Nosso foco de produção se torna mais divergente que convergente. A inconsistencia parece ser uma qualidade. A fluencia associativa parece boa nas primeiras horas da manhã. Queremos desenvolver a habilidade para questionar, mas não ousamos. As desconhecidas respostas parecem já conhecidas. Sinto necessidade de reconhecimento, mas não sei de quem, nem pra quê. A autonomia, que um dia fez muita falta, hoje não faz nenhuma. Continuamos com habilidade de elaborar, mas não temos público. As salas-de-aula ficaram no passado. O ceticismo parece ter crescido, mas nada fazemos com ele. O que de fato mantemos é o julgamento independente e o auto-assertivismo. Gostaríamos de crer na auto-confiança, mas os rebentos do declínio atrapalham o pressuposto. Já não queremos ter energia direcionada a uma missão. No meu caso me basta ter a energia necessaria para formar minhas filhas. Continuo sensível a problemas nacionais e contextuais, mas me parecem distantes de meus interesses imediatos. Continuo com flexibildade espontanea, mas sem me importar com as consequencias. Penso que a fluencia verbal que tive é a mesma, mas atenção é mais difusa agora que antes. Necessito de variedade, mas a mesmice é a maior constante na vida atual. Sou mais non-conformista agora que antes, mas mantenho o destemor de estar errado.

fev

2

SER EFICAZ NO VIVER

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Diz-se que somos eficientes quando fazemos o que precisamos com o menor custo e no menor tempo. E, que, somos eficazes quando somos eficientes e atingimos o que desejamos. Um problema com a eficácia é a mudança no desejo. Não somos eficazes hoje quando o que desejávamos era para ser feito.

Em princípio, tudo que conseguimos fora do tempo desejado não é eficácia. É claro que não sendo eficiente, não conseguimos ser eficaz. Tire o desejo e a eficiencia depende apenas de capacidade mental ou técnica. Seria o melhor uso da mente atingir a satisfação do desejo? Ou seria o melhor uso da mente ser apenas eficiente?

Quando desejo o que está além de minha capacidade de realização, sou incoerente. Ser incoerente é não estar inteiro, isto é, não estar completamente dedicado a um objeto de busca. O que quer que buscamos sem nos dedicar inteiramente não é são, é doente.

O principio da eficacia é que não se pode ser parcial no que se quer. Cada desejo tem que ser inteiro ou não é desejo. Então, o que é? É apenas um anelo, um anseio, uma aspiração. Realmente não precisamos de que se realize. Desejo pela metade não é.

Ninguém vive eficazmente, isto é, atingindo o que deseja. Não por que não seja possível. É por que metas e desejos são móveis. E, somente crescemos se forem. Então, ser eficaz no viver é outra coisa. É apenas eficiencia, ou atingir o que desejamos com o mínimo esforço e com o mínimo custo. Somos eficientes quando produzimos uma página como esta em menos de uma hora e sem nenhum sacrifício. Se ela acaba sendo o que desejamos ou não depende do que desejamos antes, durante e depois. Sendo o desejo móvel, podemos tê-lo quando nos apraz ou quando suscitado. Não sei o que me apraz, mas, às vezes, sei o que não. Penso que nunca fui eficaz em nada. Desejos cambiantes não nos tornam eficazes, que é coisa de gente com desejo fixo, determinado. Por isso, penso que ainda não soube viver. “Que saiba morrer o que viver não soube”.