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dez

17

TRAPAÇAS

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Trapaça é definida em bom português como artimanha, ardil e safadeza.

Independente dos motivos, quem trapaceia engana um inocente das intenções do trapaceador. Todo trapaceador precisa de uma vítima: velho, criança ou analfabeto. Ele pode estar encrustado em qualquer profissão. Em se lhe aparecendo a vítima, não resiste à oportunidade de trapacear. Orientar a vítima – nem pensar. O trapaceador precisa ganhar, como se desse ganho dependesse sua sobrevivencia. No domingo irá à missa e comungará como faz em todos. A consciencia é uma coisa, trapacear é outra. Trapacear é ganhar desonestamente sem que a vítima perceba como desonesto. Assim foi o dentista a quem pedi que fixasse uma prótese frouxa. Levou no mínimo uma hora fazendo o desnecessário em minha boca para depois me cobrar 50 reais. O trapaceiro de genética é assim: em se lhe dando a oportunidade, ele tira do incauto com artimanha, como precisando de uma hora ou mais para prender uma prótese de três dentes, que se soltou.

Por que precisam eles de trapacear para sobreviver? Quem trapaceia não quer somente sobreviver, quer ganhar mais rapidamente. Teme a pobreza que se aproxima veloz a cada trapaça fracassada. E quanto mais trapaceia, mais propenso ao fracasso. Trapaça é assim – ninguém sabe muito bem como pratica-la. Pode ser sempre surpreendida por alguém atento. Maldita gana em querer ganhar explorando a ignorancia (inda que suposta) do outro. Assim como nenhuma sabedoria é completa, nenhuma ignorancia é completa. Há sempre uma sinapse escondida atrás de cada sabedoria ou ignorancia. Esteja atento a essa conexão que não está brilhando nos olhos nem boiando nos lábios. Tenho aprendido que quando lutando contra outra inteligencia é melhor ser igorante que sabio. À ignorancia tudo se perdoa; mas à sabedoria tudo se acusa. Não pretenda ser sábio quando a sabedoria pode ser entendida como artimanha, ardil ou safadeza. O engano inteligente tem apenas a duração da inteligencia enganosa.

fracasso. Os inocentes estão ficando cada vez mais raros. Todo trapaceiro encontra outro que não queria trapacear. E aí, tudo pode acontecer.

dez

14

TENHO OBSERVADO QUE

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Deficiencia de zinco em mim é o rareamento do cabelo púbico.

Convenci-me de que o ritmo de envelhecimento não é fixo.

Sei que estou bem nutrido quando minhas unhas e cabelos brilham

Acredito que mantendo-me esbelto evito células cancerosas.

Uma ótima dieta contém um pouco de carne, leite, peixe ou ovo.

Verduras, não frutas, evitam perda de memória no envelhecimento.

Somos todos diferentes, não existe o ser humano típico.

Quem nasceu em outono vive mais que quem nasceu na primavera.

Bebês nascidos no inverno são mais aptos que os nascidos no verão

Mulheres me são mais atraentes quando ovulando.

O resveratrol do meu vinho é o anti-envelhecimento em que confio.

Sinto-me um animal cerebral quando me reconheço no espelho.

A acumulação de cálcio em minha pele me envelhece.

A melhor garantia de vida longa é a redução do peso do corpo.

Posso consumir 255 calorias diariamente.

Pouco sabemos de doenças quando nada sabemos do que comemos.

Das 7 habilidades cognitivas a que menos tenho é talento musical.

Inteligencia desenvolvida nos conduz mais rapidamente ao tédio.

A evolução intelectual não se preocupa com a felicidade humana.

Não sou velho, sou apenas mais velho que meus amigos.

Espero que fique quando morrer o pensamento de ter existido.

Paulo nunca conheceu Cristo, mas é responsável pelo Cristianismo.

Fora da Biblia não existe nenhuma prova da existencia de Jesus.

Talvez tenhamos um terço dos genes de tudo que existe no mundo.

Resveratrol do vinho o faz parecer um atleta sem treinamento.

dez

14

DEVEMO SER MELHORES QUE NORMAL?

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

SER NORMAL NÃO BASTA…

Estamos todos vivendo a síndrome de Alice no País das Maravilhas: temos que correr duas vezes mais rápido para ficarmos no mesmo lugar. É a síndrome do avanço: quanto maior, melhor; quanto mais avançado, menos atrasado; quanto melhor, melhor… Tomamos vitaminas para nos prevenir contra a possível ausencia delas em nossos alimentos normais; compramos computadores para nos tornarmos atualizados com a informática – que é um avanço; fazemos arriscados exercícios para garantir vida mais longa; deitamos nos divãs dos psicanalistas, para nos tornarmos mais felizes conosco mesmos; entregamos nossos estresses aos psiquiatras, para nos tornarmos mais ajustados; trabalhamos feito desesperados para fugirmos da pobreza iminente; enganamo-nos com qualquer curso de pós-graduação, para não sermos tomados como apenas graduados; enfim, fazemos qualquer coisa para irmos além do normal, para que não arrisquemos a sermos simplesmente normais.

Para entender essa louca demanda ao “além do normal” foram criadas varidíssimas especializações em todas as profissões e até em ocupações do dia-a-dia. O normal já não é bom para ninguém que atravessou o Rubicon da pobreza. Embora o “normal” seja escrito e entendido da mesma forma em pelo menos oito idiomas (Inglês, Francês, Alemão, Italiano, Espanhol, Suiço, Iidiche, e Português) parece não ser suficiente para a maioria das pessoas afluentes – as que buscam ser cada vez menos pobres. Ninguém mais quer a simples normalidade. Os maduros e maduras querem parecer mais jovens e recorrem a cirurgiões plásticos; todos querem pelo menos um curso superior, ninguém quer ser técnico ou apenas mão-de-obra qualificada; todos querem ser desenvolvidos e “aggiornados” em todos os aspectos.

As doenças fisiológicas, apesar de muito exploradas por especialistas em todos os órgãos, entradas e saídas, já não distinguem bastante. As doenças emocionais e comportamentais, apesar de hodiernamente menos conhecidas, estão se tornando mais exploradas, levando nossas preocupações além do que se considerava normal. Hoje, os incômodos de nossas mães e avós são de natureza psiquiátrica; chamam-se desordens disfóricas premenstrual ou PMDD. Tornaram-se suficientemente psicossomáticas para serem consideradas patológicas. Com elas, a linha entre o normal e o anormal se torna obscura. Tudo são anormalidades para um dado especialista!

HIPOCONDRÍACOS PRODUZEM ESPECIALISTAS

Alguém é hipocondríaco quando sofre de hipocondria, naturalmente. É uma dessas doenças quase psicológicas, que já começa em sentido figurado. Etimologicamente, hipocondria quer dizer abaixo da costela ou do abdomen. Acreditava-se que a manifestação de hipocondria nascia dessa região. Todavia, na acepção mais comum, diz-se que alguém é hipocondríaco, quando vive num mundo de doenças imaginárias que acaba por dar ao indivíduo uma melancolia acentuada.

A fuga da normalidade e da busca de especialidades médicas estão associadas com essas manifestações de doenças imaginárias. Acredito que a hipocondria é fomentada pela disponibilidade de especializações médicas. Como era no passado, haveria menos hipocondríacos se houvesse menos especializações disponíveis e propagadas pela midia para curar doenças imaginarias. O que se propõe é que os avanços da medicina trazem benefícios para uns poucos e preocupações com doenças inexistentes para muitos. Isso é bom para os avanços experimentais da Medicina, para alguns médicos e para os abundantes planos de saúde, que parecem pouco satisfazerem médicos e pacientes.

É preciso um urgente controle na natalidade da profissão médica. Apesar de todos conhecidos drawbacks, ainda é a profissão mais buscada nos vestibulares. Eles estão abundantes, porém ainda atuam como se fossem avis rara. Os planos de saúde estão se tornando uma indústria, não em função de suas eficiencias, mas em função da abundancia de especialidades médicas. Quem paga o pato desse irrealismo são os clientes, que precisam ser pacientes para que suas doenças reais não sejam tratadas como imaginarias e que estas sejam encaixadas nos menus dos planos para que o dinheiro não acabe antes da vida.

SER DOENTE É PRECISO

Problemas psicológicos que no passado resolvíamos sozinhos, hoje são focos de atenção clínica, antes nos Estados Unidos, hoje muito no Brasil. Segundo Sheila M. Rothman (College of Physicians and Surgeons of Columbia University) esses focos de atenção incluem: problema relacional com o sócio; declínio cognitivo relacionado com idade; privação de entes queridos; problemas acadêmicos; problemas ocupacionais; e problemas fásicos da vida. A diferença entre paciente e pessoa está virtualmente desaparecendo. É a criatividade levada aos extremos. Se você não for paciente de algum especialista há algo errado com você ou está precisando descobrir.

Eu nunca tive doença de qualquer tipo. Portanto, me falta empirismo. Só posso falar de minhas experiencias vicárias. Mas, tenho observado que quanto mais a Medicina avança mais cria doenças, que mais criam fármacos ou remédios. Intervenções médicas são às vezes mais buscadas que curas às doenças, por irônico que pareça. A sociedade, como a Natureza, busca equilibrio, uma dentro do seu determinismo social e outra do seu biológico. Havendo médicos e especialistas em abundancia, é preciso descobrir novas doenças para mantê-los ocupados. A mesma lei se aplica à indústria farmacêutica: uma linha de produtos novos para cada nova doença.

Mas, o que nos preocupa nesta Trivia é principalmente o problema da normalidade. Quanto temos que considerar nossos achaques bastante normais para recorrermos a médicos disponíveis? Parece que quanto mais se descobre novas categorias de doenças menor a diferença entre cura e ampliação das necessidades para se ficar melhor. A Natureza, como se sabe, abomina o vácuo. Se insistirmos em querer ficar melhor que o normal teremos que ser eternos pacientes.

dez

7

ABELHANDO

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

01. Apesar de algum tempo em Seminário, li apenas o Livro de São Marcos – o primeiro e o mais confiável guia à vida de Jesus. Os livros de Mateus e de Lucas foram escritos no mínimo uma década depois - cerca de 50 anos após a crucifixação.

02. Não sou ateísta, mas penso pouco na existencia de Deus, não por que tenho evidencia contra a existencia Dele, mas por que não tenho evidencia para envolvê-Lo em minha vida.

03. Tenho observado que minha capacidade de pensar está conectada com meu estômago. Quando tenho fome, meus pensamentos não avançam. Com muita fome entram em fuso.

04. Li que em meu cérebro há um nervo chamado “mirror neuron”. Ele reage às ações de outras pessoas. Quando vê os movimentos de outra, esse nervo pode sentir como se estivesse ele mesmo praticando a ação. Não tenho evidencia disso. Mas, aceito como plausível.

05. Frequentemente observo demoradamente partes do meu corpo. Se souber o que cada parte pode e não pode fazer, penso que viverei melhor.

06. Estou em crise existencial. A palavra crise sugere uma interrupção de um estado normal. Espero que passada a crise eu volte ao estado natural que um dia perdi, seguindo rastros que não fui eu quem fez.

07. Aposentado após 34 anos em salas-de-aula, não quis retornar para não me sentir um professor itinerante – a marca maior de professores menores.

08. Vivo hoje sem quatro dos meus cinco filhos. Suas idades estão no intervalo 16-42. Dispersão bastante grande para causar desbalanceamento na normalidade. Mais de 50% das famílias que conheço estão mais ou menos assim desbalanceadas. E como fica?

09. Nestes dois últimos anos de indesejável lazer venho observando o mercado de Jaraguá. Verifiquei que há pouca transparencia, média-baixa eficiencia; insuficiente produtividade de lojistas, e pouco controle de responsabilidade, principalmente com o cliente.

dez

7

TAEDIUM VITAE

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Meus quatrocentos dias de vida em Jaraguá, se braços tivessem, estariam nadando num mar de tédio. Não se vence o tedium assim como não se vence o mar, em se nadando nele. No tedium apenas se nada, o próprio bracejar é tedioso; infelizmente não se voa no tédio, pois este nem espaço é, mais propriamente é ausencia de espaço. É o próprio ennui: apatia, lassitude e langor. Quando você consegue fugir dele, você não o teve realmente. Qual depressão (sua alma irmã) não se foge do tédio, porque é agradável senti-lo; é como fumar continuamente o cigarro que pode matá-lo. O instinto que nos leva ao suicídio precisa ser melhor estudado.

Somente os que morrem antes dos trinta podem verdadeiramente dizer que jamais sentiram tedium de viver. É natural que o tédio seja casado com a longevidade e tenha a solidão como irmã. Entretanto, parece ser necessário que se esteja na cidade errada com as pessoas erradas para não ser capaz de fugir do tédio, antes que ele o engolfe no remanso.

Há legítimos casos de tedium que se tornam uma segunda natureza. Pessoas há que vivem entediadas. Tem a ver com o desenvolvimento mental. Quanto maior a pessoa o possui, mais propensão a perceber monotonia nos eventos. Entretanto, tedium tem outras motivações não cerebrais. O corpo fraco leva ao tedium tanto quanto a incapacidade física para fugir dele. Doentes incapazes de se movimentarem o sentem como um castigo.

Fora dessas circunstancias materiais, o tedium é principalmente mental. Fugir dele é uma obrigação que todos não-depressivos deveriam sentir ter. Quando não se está dominado por ele, na sua forma profunda, o tédio nos leva à análise de seus motivos. Se nem isso nos permite, o tedium é uma doença tão inútil quanto uma dor de cabeça que não nos larga nem quando nos divertimos.

Somente amigos e amigas de infancia e adolescencia ainda vivendo conosco, que guardamos no fundo de nosso coração, nos pode aliviar do tedium. Eles nos trazem o passado, em que não havia tédio. Tedium é uma quase-doença do presente. Felizmente, só no presente é possível sentir tédio.

dez

3

DESRESPEITO DOS FRACOS

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Nada mais temível que ter o desrespeito dos fracos. Mais degradante que ser desrespeitado é ser esquecido por eles. Quem são os fracos? Para usar u´a medida universal que todos entendem, os fracos são os mais pobres que você e principalmente os que estudaram bem menos que você. Anos de escolaridade é uma medida objetiva de força intelectual. Entre os alfabetizados, quem cursou menos de oitos anos escolares é fraco; quem cursou entre oito e doze é médio; e quem cursou entre treze e dezoito pode ser forte, se não for desrespeitado pelos fracos. O respeito deles é um eficiente indicador de ser você superior.

Por outro lado, o desrespeito dos fracos é o melhor indicador de que você não é percebido como forte. O que se deve fazer? Se você de fato é forte, mais facilmente conseguirá o respeito de outros fortes que o de fracos. Logo, se o seu estoque de conhecimentos for amplo, não o torne acessível aos fracos. Se puder, evite-os. Similis cum simillibus curantur. Seus méritos são melhormente reconhecidos pelos que os têm que pelos que não os têm.

Sua personalidade e comportamentos estão muito distorcidos, quando os fracos não o respeitam. Todavia, você pode ser coerentemente forte e não ser respeitado por um parente coerentemente fraco. Parente não admite superioridade em seu parente. Exceptis excipiendis, o parente fraco “precisa” desrespeitar o parente forte. Assim não fosse, estaria contrariando a genética e ninguém tem o poder de contrariar a genética, quando não há fatores sociais intervenientes. Geneticamente, todos os parentes são iguais. Iguais sendo, é mais coerente desrespeitar que respeitar cultura e conhecimentos de um parente. Quando desrespeitamos nos igualamos; quando respeitamos nos inferiorizamos. Entretanto, desrespeito e respeito somente têm significados pelas suas consequencias. O desrespeito pode ser temporário e o respeito falso. O fraco desrespeita o forte quando o considera igual, e o respeita quando não sabe bem o que é. POIS, o mundo é dos fracos. Os fortes precisam ser desrespeitados para serem iguais, como convém a todos. Se possível fosse, fortes deveriam conviver apenas com fortes. Não havendo essa convivencia somos todos fracos, cuja convivencia é um ipso facto.

Parece que somente o fraco é natural. O forte é necessariamente artificial. Isso é verdadeiro, porque, como dizia Machado, somos todos pontuais na sepultura.