Por Professor Alexandre do Espírito Santo , Ph.D.
Como todos os conhecidos de lV grau já sabem, estou vivendo em Floripa, desde o avançado Verão e todo o Outono deste ano.
Muitos me perguntam o que vim fazer aqui, depois de
mais de 20 anos dedicados a Londrina.
Respondo-lhes que mudar de cidade pouco importa,
mas mudar de pessoas é muito importante para a renovação ou esperança dela.
De fato, o que muda em nós são algumas variáveis da vida
onde quer que estejamos.
Penso que as seguintes não somente informam como vivo aqui, como talvez me façam viver da forma que informo.
SAÚDE
Acredito que gozo de mais saúde aqui do que lá,
embora também lá nunca tenha estado doente.
O ar daqui do meio da encosta da montanha
parece puro bastante para estimular exercícios matinais.
É o que tenho feito há 180 manhãs.
TEMPO
Felizmente, faltam-me contatos supérfluos aqui que nos
fazem perder tempo. Tenho lido principalmente jornais
internacionais, que me tomam pelo menos
duas horas diárias.
Meus livros ainda estão em Londrina, aguardando transporte.
Acordo às seis para ter certeza de que as meninas não
chegarão atrasadas aos colégios.
Com as primeiras horas da manhã livres e sem empregada,
temos mais sexo agora que antes.
Nenhum sexo é melhor que com muito tempo e
sem impurezas no sangue - o da manhã.
DINHEIRO
Nunca tive falta de dinheiro na vida, a não ser quando
comprei a primeira casa - em Campinas.
Aqui, sem trabalho adicional, tenho que limitar gastos
com o desnecessário. Entretanto, ter menos do que
desejável tem sido útil à educação das porcelanas.
Entre um tênis de 400 e um tênis de 200 existe
muita diferença e ambos são bons e lindos.
POPULARIDADE
Em Londrina era conhecido por mais de 900 alunos
pós-graduados a quem lecionei desde 1979, e
por leitores de meus livros e de 68 artigos publicados pela
Folha e Jornal de Londrina nos últimos 20 anos.
Aqui, tive que conquistar desde o padeiro até os gerentes
de lojas onde comprei os móveis para o apartamento.
Aqui ninguém parece ser muito popular.
O manezinho consegue esconder popularidade até de Guga.
APARÊNCIA PESSOAL
Em recente visita a Londrina, vários conhecidos
me disseram que remocei nos últimos cinco meses.
Se vida bem vivida remoça, eles estão certos.
Acho que estresse, pouco sono e muita atividade
são as principais causas de rugas e expressão envelhecida.
Durmo oito horas, tenho pouca atividade cansativa e a única
fonte de estresse ocasional tem a ver com a disciplina necessária à educação das porcelanas.
SEGURANÇA
Pagar a Cassi tem sido um inferninho desnecessário
para mim que nunca fui hospitalizado e com exames
periódicos dando saúde boa. Afinal, são quase
17% do meu salário. Fora disso, a segurança no Condomínio
é quase absoluta. Temo apenas as descidas matinais às 6:30 e as subidas nos crepúsculos às 18:30 das porcelanas.
Mas, a ladeira é bem calçada, bem iluminada, e as residências bem ativas nesses horários.
ELOGIOS
Quando se está na maturidade, os elogios aos seus feitos
escasseiam. Parece que é percebido como natural
que o intelectual maduro produza rebentos elogiáveis.
Particularmente, não espero elogios aos meus
filotextos diários.
Interessam-me muito mais comentários
convergentes ou divergentes.
Em termos comportamentais, o elogio mais prezado é saber
que há pessoas me citando.
CONFORTO
O apartamento em que vivo hoje é apenas 1/6 da casa
em que vivia em Londrina. Porém, a arrumação pode ser
mais importante que a largueza. Não sinto falta do espaço
que tinha e nem aperto no espaço que tenho.
Conforto físico é isso. Nossos dois carros estão
numa única garagem, exigindo pouca manobra
para entrar e sair.
LAZER
Quando bem aproveitado o lazer é uma garantia de longevidade.
O homem só está muito ocupado quando ainda não conquistou lazer.
Em geral fujo de homem muito ocupado e de mulher com muito tempo.
Nenhuma dessas pessoas está em lazer.
A pessoa em lazer é mais civilizada.
Planejo hoje meu lazer diariamente como se fosse ocupação.
REALIZAÇÃO
Lecionei durante 32 anos e tenho escrito livros há 22.
Meus raciocínios completos ainda não encadernados
já somam mais de mil peças.
Criei e desenvolvi uma família
e comecei uma segunda que se está desenvolvendo.
Tornei real muito do que não existia antes de mim.
AVANÇOS
Penso que cresci como uma curva logística:
muito lentamente até os 20 anos e disparadamente até os 40.
Então Londrina amorteceu minha ascensão.
Desde então cresço segmentadamente,
desviado do rumo original.
Talvez devesse ser assim para ser bom do jeito que é.
ALEGRIA
Sou pouco propenso à alegria.
A mente propensa à análise não deixa a alegria crescer além do real.
No real complexo a alegria tem que ser fingida.
Estou alegre quando não tenho dores ou preocupações
desafiadoras. Nunca estou completamente alegre.
Alegra-me apenas não estar insatisfeito.
AUTO-CONFIANÇA
Minha auto-confiança é tão natural quanto ter pés ou mãos.
Não sinto falta nem a presença deles. Uso-os quando preciso, e eles estão sempre à minha disposição.
Nunca tive desafios que ofuscassem minha auto-confiança.
PRESTÍGIO PESSOAL
Experimentei prestígio em várias fases da vida.
Mas, nunca soube tirar vantagens dele.
Por algum motivo irracional, nunca soube conquistar ou explorar o pouco prestígio que já tive.