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jun

14

PRAEDATORIUS

Por Alexandre do Espírito Santo, Ph.D.

Um animal predador caça, submete, e devora a presa mais fraca. Mutatis mutandis, o homem é predador quando conquista e tira vantagem do semelhante menos esperto ou menos sabido ou menos desenvolvido no assunto em questão.

Nesse sentido, o político ganancioso de votos é um predator por excelencia. Para aplicar sua nefasta arte, ele busca eleitores simples de regiões menos desenvolvidas. Há pouco valor em ganhar a aprovação de ignorantes das implicações de um programa de governo e de suas consequencias para a sociedade. Num processo político ideal, o eleitor somente poderia votar se demonstrasse saber através de um teste as potencialidades do político que lhe pedisse o voto para realizar o que promete. O sufragio universal estaria fora de moda nesse processo. É evidente que a ignorancia do eleitor é o maior cabo eleitoral da maioria dos candidatos. A Lei dos Grandes Números tem seus limites de consciencia e decencia. O político aliciador é um predador no processo eleitoral. Os juízes eleitorais deveriam saber disso. Predadores na Natureza buscam caçar presas com menores cérebros. Políticos predadores não fazem outra coisa para ganhar eleições. Assumindo que eleitores ignorantes dos problemas nacionais são as presas mais fáceis, políticos predadores vão buscá-los nas regiões menos desenvolvidas do país. Outras conquistas em regiões mais desenvolvidas acontecem porque cocada vem de coco e coco vem de coqueiro. Mas, o político predador fica devendo explicações ao povo que governará. Uma questão a ser desenvolvida pelo Tribunal Eleitoral é qual o percentual de votos conquistados nas regiões mais desenvolvidas?

dez

13

SORTE OU CHANCE?

Por Professor Alexandre do Espírito Santo , Ph.D.

φ ou ψ

Os simples entendem que alguém tem sorte quando é afortunado, i.e. as vantagens lhe chegam sem que tenham planejado ou trabalhado para te-las. O pouco que faz dá certo e o muito que não faz parece ser perfuntorio. Essa sorte de origem misteriosa que desconsidera a probabilidade dos eventos em suas combinações e permutações, como ensinadas pelos matemáticos das probabilidades: Pascal, Huygens, Bayes, Bernoulli e De Moivre, é obra do acaso, do fortuito, da chance cega, do determinismo - assunto de teólogos. Cabe a eles reconciliar a livre vontade do homem com a predestinação de Deus; acasalar sorte e azar com a providencia divina. Não há mérito em ter sorte.  Usar a chance é que tem. Sorte é destino, é karma, fortuidade ou serendipidade. Não há controle na sorte. Sem controle, qualquer evento é uma ilusão que pode ou não dar certo. A chance é filha da competencia. É sinônimo de probabilidade, possibilidade, contingencia e tendencia. Uma pessoa tem chance em qualquer caso quando desenvolve competencia e sabe usar a oportunidade que se lhe apresenta. Há sempre alguma probabilidade em qualquer evento desejavel (<1.0 e >0.0) de que ela tenha mais que sorte quando faz tudo certo. Este princípio se aplica tanto a pessoas como a empresas. Honestamente, somente se tem sorte com competencia. Obviamente, a probabilidade de que tenhamos chance de o que desejamos é menor quando nosso conhecimento e prática das variaveis envolvidas são insuficientes. Daí a diferença entre ganhar e ter sucesso. Para ganhar, em geral, é preciso que alguém perca, mesmo quando o conhecimento seja insuficiente, mas é possivel ter sucesso onde ninguém falhou. Assim sendo devemos usar as leis da probabilidade como base para a ação ou problemas práticos, que Boole e Venn chamaram de “lógica da chance”, pela qual o que se faz pode não dar certo, mas é lógico. Somos racionais quando atuamos com essa incerteza, e irracionais quando deixamos que o acaso faça acontecer o que desejamos que aconteça. Dessarte, temos que ter competencia para termos chance, e esta, sabemos, não se ganha com sorte. É uma especie de instrumental necessário, mas nem sempre suficiente para te-la. Entretanto, mais vezes a temos com ela que sem ela.

dez

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ALÉM DO CONTROLE

Por Professor Alexandre do Espírito Santo , Ph.D.

Cada um de nós tem uma porção de fatos na vida que vão além de nosso controle. Tais fatos de certa forma foram criados por nós. Lutar contra eles frequentemente resulta em estresse e frustração. Um deles é que ficamos cada dia mais velhos e não existe reversão de idade. Todavia, podemos retardar seus efeitos em nós. Mas, as receitas são tantas que poucos descobrem as mais apropriadas às suas individualides. Outro fato que nos aborrece quase diariamente é que não há muita justiça em nossa vida. Quase sempre achamos que fazemos e merecemos mais do que recebemos. As poucas pessoas que amamos parecem não gostar muito de nós. Em geral, não sabemos como mudar para que elas também mudem. E, elas nos querem mudados antes de mudarem o que não gostamos nelas. É um conundrum. Um outro é que mesmo quando gostamos muito da vida que temos, as mudanças são inevitaveis. Quando resistimos mudar, ou quando conseguimos mudar, nos descontrolamos. De fato, a ninguém superiormente inteligente deveria interessar controlar coisas, eventos e muito menos pessoas. Tenho observado que somos escravos de tudo e de todos que pensamos que controlamos. Ninguém controla efetivamente o que quer que seja, sem perder um tanto da própria liberdade. E, sem liberdade para variar a si mesmo, o controle de coisas, eventos e pessoas é um desvario.

nov

9

ENTREVISTAS QUE CONTAM

Por Professor Alexandre do Espírito Santo , Ph.D.

Um encontro entre duas pessoas com um objetivo principal e comum declarado, e vários outros que cada parte mantém mais ou menos ocultos. São assim as entrevistas para várias finalidades não-técnicas. Em geral, as mais formais têm hora marcada. Porém, as que mais contam para nossa vida não têm. São entrevistas conosco mesmos, ou melhor, com “entidades” que fazem parte de nós no momento da entrevista. A primeira delas é com o “nosso passado”. É a entidade mais difusa: primeiro por que pouco nos interessa, e segundo, por que pouco nos lembramos  dele. Esse entrevistador apenas fala do que já está em nossa consciência. E esta é muito seletiva com relação a ele. Entretanto, o que nos pergunta na entrevista nos leva a um estado de perplexidade: pergunta-nos sobre o que não podemos deixar de saber e quer saber o que não sabemos. O passado é assim, perturbador. Mas, uma entrevista com ele é necessária. De certa maneira é uma barathrom - grego para abismo insaciável. Não conseguimos nunca as respostas para o nosso passado. Porque fizemos ou deixamos de fazer atos do passado ficam sem respostas. Não fosse tão importante para nosso presente, a entrevista com o passado seria uma perda de tempo. A outra entrevista que conta é com o nosso câncer. Dizem os oncólogos que todos temos câncer, mas ele precisa de dez anos para se manifestar. Na entrevista, o cêncer faz-nos perguntas sobre nosso estilo de vida, mas acredita mesmo que é a nossa genética é que tem as respostas. E, como sabemos pouco de nossa genética, a entrevista com o câncer se assemelha à de um executivo que sabe pouco inglês entrevistando um engenheiro húngaro com um inglês mais deficiente ainda. A entrevista conta muito por que o objetivo principal é claro: temos poucas oportunidades de falar com nosso provável assassino. Todavia, a entrevista com a entidade mais importante é com a MORTE. Quando ela é postergada, a vida se torna menos engajante. Pouco do que está acontecendo parece interessar. Os eventos vão perdendo significado, e até as coisas belas que muito nos excitavam perdem a vivacidade. Algumas ainda nos causam algum benefício, mas nenhuma delas prolonga a vida. Uma das perguntas que gostaríamos imensamente de ter uma resposta de nossa impassível entrevistadora é “quantos dias terrestres ainda temos?” Mas, a nossa sizuda entrevistadora só nos responde que é a Natureza que computa nosso tempo, mas nós não podemos ver o relógio. Como acontece com o passado e com o câncer, nossa entrevista com a morte nos deixa igualmente desinformados. O negócio é então gozar a vida por mais insignificante que seja o prazer e por mais transitório que seja o instante. Contentemo-nos em sermos pequenos. Há mil anos, Sei Shonagon escreveu em seu livro de travesseiro: “Todas as coisas pequenas, independentemente do que sejam; todas as coisas pequenas são lindas”.

nov

1

O REMANSO

Por Professor Alexandre do Espírito Santo , Ph.D.

Há uma fase na maturidade em que se entra no remanso da vida. É uma contracorrente inescapável. Muito do que se planeja fazer num dado dia, no outro já não se quer mais.

Quase muito parece ser ainda possível fazer nada parece ser suficientemente atraente. A mesma experiencia que estimula e facilita é a que bloqueia e desmerece as futuras ações planejadas. E assim o tempo passa célere e despercebido no remanso amaro-doce da vida.

A capacidade de formular planos é imensa; maior é a de desfaze-los. Os dentes da roda do lento moinho parecem antecipadamente encaixados em todos os fulcros que virão nos futuros giros de cada dia.  

Entretanto, esse estado de paralisia crítica não se dá apenas na maturidade, mas afeta a todos de qualquer idade que se acomodaram em uma fase da vida. O preguiçoso é o mais afetado pelo remanso extemporaneo. Moço ainda e já calcula os passos da provavel ação a fim de não da-los. Em cada análise ele faz uma parálise. Somente vê obstáculos na realização de qualquer ato que exige esforço imediato.

Sair do remanso é talvez a mais dura batalha dos que entraram nele. A vontade de estar no remanso se fortalece com o tempo. A cada ocasional esforço para sair se reforça o convencimento para ficar.

A saída enganosa é gerada pelo proprio remanso no recôndito vórtice que tudo engolfa.