Trivia Philosophica

Ciência - Filosofia - Religião

fev

8

PROTEÍNA DAS ESTRELAS

Por Professor Alexandre

É compreensível que alguém não adore peixe em qualquer de suas formas de consumo; é compreensível que alguém apenas goste de peixe, mas é incompreensível que alguém razoavelmente civilizado odeie comer peixe, principalmente catfish cozido ou frito.

O mundo está acordando para o consumo dessa proteína das estrelas. Notícia recente informa que as nossas secretarias de agricultura estão cuidando de povoar as represas e rios para pesca livre. A China produz em suas represas milhões de toneladas por ano. O povoamento completo de apenas a represa de Itaipu abasteceria todos os estados do Sul. O Brasil com mais rios que a maioria dos países poderia ser o PAÍS DO PEIXE.

Chega de carne de boi - proteína assassina. Nenhuma receita para uma alimentação saudável inclui carne de boi. De fato, a nova Food Pyramid a exclui totalmente. Foi um castigo para a humanidade quando se iniciou a domesticação desse monstrengo há 4 mil anos antes de Cristo. Está provado que é insólito comer diariamente carne de Bos da família Bovidae e desejar viver longamente. É um predador de tudo que temos de bom na terra. Ele veio para despopular o Planeta.

Mas, o meu assunto de hoje é o catfish. Quem ainda não o viu ou pescou não conhece o mais elegante e o mais ágil dos peixes de águas fundas. Existe em todos os tamanhos: os maiores chegam a medir mais de três metros e os pequenos variam de 5 a 10 cm. É o nosso bagre de origem africana, mas abundante nos Estados Unidos e no Canadá também, em que há muitas variedades. Seu ferrão espiga no dorso o torna presa difícil a qualquer tipo de predador.

Quando preparado adequadamente se identifica com o pintado e com o cação, mas é impossível confudi-lo com estes. Sua carne crocante o distingue. É lamentável que nossos pesque-pagueiros tenham desenvolvido maior habilidade para a criação de peixes de escamas e principalmente a impagável tilápia. Acredito que com o desenvolvimento da piscicultura, a carne de catfish será usada até para sanduiches, não só por que é mais resistente que a de atum e anchova, mas por que também não tem gosto peculiar, portanto apropriada para absorver qualquer tempero. Seria mais fácil para qualquer industrialização, pois quase não tem espinhas.É absolutamente o frango das águas!

Quem já comeu um catfish no molho à la Soeli perceberá que o peixe é a proteina ideal para a longevidade e esse Ostariophysi a mais deliciosa das carnes da água.

fev

3

ENVELHECENDO, PERDEMOS E GANHAMOS

Por Professor Alexandre

Em se envelhecendo é mais natural perder que ganhar. Quando começamos a enenvelhecer? Quando não mais importamos que estamos envelhecendo. A primeira qualidade que perdemos nesse processo natural de decadência é audácia. Adiamos até adiamentos. Nossa complexidade pessoal aumenta, mas, sem desafio à inteligencia. Nossa necessidade de dominação aumenta, mas cada dia somos menos respeitados. Nossa necessidade de estudar problemas diminui. Nada vale a pena. Ficamos cada vez mais impacientes com a ignorancia. Nosso foco de produção se torna mais divergente que convergente. A inconsistencia parece ser uma qualidade. A fluencia associativa parece boa nas primeiras horas da manhã. Queremos desenvolver a habilidade para questionar, mas não ousamos. As desconhecidas respostas parecem já conhecidas. Sinto necessidade de reconhecimento, mas não sei de quem, nem pra quê. A autonomia, que um dia fez muita falta, hoje não faz nenhuma. Continuamos com habilidade de elaborar, mas não temos público. As salas-de-aula ficaram no passado. O ceticismo parece ter crescido, mas nada fazemos com ele. O que de fato mantemos é o julgamento independente e o auto-assertivismo. Gostaríamos de crer na auto-confiança, mas os rebentos do declínio atrapalham o pressuposto. Já não queremos ter energia direcionada a uma missão. No meu caso me basta ter a energia necessaria para formar minhas filhas. Continuo sensível a problemas nacionais e contextuais, mas me parecem distantes de meus interesses imediatos. Continuo com flexibildade espontanea, mas sem me importar com as consequencias. Penso que a fluencia verbal que tive é a mesma, mas atenção é mais difusa agora que antes. Necessito de variedade, mas a mesmice é a maior constante na vida atual. Sou mais non-conformista agora que antes, mas mantenho o destemor de estar errado.

fev

2

SER EFICAZ NO VIVER

Por Professor Alexandre

Diz-se que somos eficientes quando fazemos o que precisamos com o menor custo e no menor tempo. E, que, somos eficazes quando somos eficientes e atingimos o que desejamos. Um problema com a eficácia é a mudança no desejo. Não somos eficazes hoje quando o que desejávamos era para ser feito.

Em princípio, tudo que conseguimos fora do tempo desejado não é eficácia. É claro que não sendo eficiente, não conseguimos ser eficaz. Tire o desejo e a eficiencia depende apenas de capacidade mental ou técnica. Seria o melhor uso da mente atingir a satisfação do desejo? Ou seria o melhor uso da mente ser apenas eficiente?

Quando desejo o que está além de minha capacidade de realização, sou incoerente. Ser incoerente é não estar inteiro, isto é, não estar completamente dedicado a um objeto de busca. O que quer que buscamos sem nos dedicar inteiramente não é são, é doente.

O principio da eficacia é que não se pode ser parcial no que se quer. Cada desejo tem que ser inteiro ou não é desejo. Então, o que é? É apenas um anelo, um anseio, uma aspiração. Realmente não precisamos de que se realize. Desejo pela metade não é.

Ninguém vive eficazmente, isto é, atingindo o que deseja. Não por que não seja possível. É por que metas e desejos são móveis. E, somente crescemos se forem. Então, ser eficaz no viver é outra coisa. É apenas eficiencia, ou atingir o que desejamos com o mínimo esforço e com o mínimo custo. Somos eficientes quando produzimos uma página como esta em menos de uma hora e sem nenhum sacrifício. Se ela acaba sendo o que desejamos ou não depende do que desejamos antes, durante e depois. Sendo o desejo móvel, podemos tê-lo quando nos apraz ou quando suscitado. Não sei o que me apraz, mas, às vezes, sei o que não. Penso que nunca fui eficaz em nada. Desejos cambiantes não nos tornam eficazes, que é coisa de gente com desejo fixo, determinado. Por isso, penso que ainda não soube viver. “Que saiba morrer o que viver não soube”.

jan

18

AOS MEUS SIMILARES MAIS SEMELHANTES

Por Professor Alexandre

01. Prefira reduzir a velocidade do envelhecimento na maturidade a acrescentar mais anos à velhice.

02. Não se esqueça de que hoje é sempre melhor que amanhã. Ninguém é mais forte amanhã, se hoje for fraco.

03. Peso e saúde são percebidos como inversamente relacionados, e ambos dependem da comida e da bebida que você consome.

04. Má saúde, não idade cronológica, é que nos faz sentir velhos quando ainda não vivemos 90 anos.

05. São nossos critérios, baseados em azedas experiências, que nos fazem avaliar com azedume as coisas novas que encontramos.

06. Nossas expectativas de longevidade são resultados de uma combinação de genes com estilo de vida. O primeiro não depende de nós, mas o segundo, ninguém nos impõe.

07. Quatro práticas para saúde equilibrada: dieta de bom senso; gerência de estresse; exercícios físicos; e envolvimento físico, emocional, e intelectual. Combine tudo com meditação e ego.

08. Você não conhece o poder que está no lado escuro das coisas que lhe parecem muito claras. Nossa Lua tem sugerido isso.

09. Toda hipótese sobre qualquer coisa, evento ou idéia, tem uma rival, que é o contrário dela. Nada defina para si, sem conhecê-la.

10. Existe uma misteriosa quantidade certa para tudo que fazemos ou consumimos para nós mesmos. Além dela é sempre pior.

11. Câncer é principalmente uma doença de mamíferos consumidores de carne vermelha; é pouco conhecida entre herbívoros e alados; mas, há muito mistério ainda nas proteínas.

12. Nossa genética vive brincando de cobertor curto conosco: menos proteína, menos câncer, mas, menos poder mental.

13. Devemos ser uma pesquisa viva, em que somos simultaneamente o pesquisador, o experimento, e o controle. Há tempos faço isso com alho, magnésio, guaraná, pólen, e óleo de peixe.

14. Auto - disciplina é a única virtude incubadora ao alcance de todos. Quem come e bebe devagar come e bebe menos e fica por mais tempo alimentado, sóbrio, e satisfeito.

15. Mais antioxidantes significa menos formas de câncer. Todavia, menos antioxidantes significa melhor preparo do corpo para combater as várias formas de câncer. Mais um quebra-cabeça!

16. Se você aos 60 está com boa audição, vigorosa massa muscular, boa vista e rápida cicatrização de um corte, pode ser que sua idade fisiológica esteja entre os 40 e 50.

17. Prolongadas dietas baixas em carboidratos e altas em proteínas têm sido associadas com crescente mortalidade. Durma com um barulho desses: os inversos ou engordam ou não evitam câncer.

18. Resveratrol e restrição calórica provavelmente desaceleram o processo de envelhecimento. Entretanto, os efeitos de restrição calórica só aparecem em anos de contínua prática, e os efeitos do resveratrol somente após anos de consumo diário de vinho tinto. There is no free lunch na busca da longevidade.

19. Quer seja pelos minerais, quer por outros ingredientes vitamínicos presentes nos órgãos que mais trabalham no corpo, o consumo intermitente de coração, fígado, moela e rins nos faz muito bem. Nenhuma carne é digestível com menor turbulência que estas.

20. Diabetes mata pouco, mas mutila muito. A natureza nos ensina a combatê-la de forma fácil com intenso consumo de soja.

jan

18

APATIA

Por Professor Alexandre

A apatia, segundo sua derivação grega, é uma ausência de sentimento ou emoção. Há pessoas para quem um certo grau de apatia é natural: são os “chumbosos”, pesados e passivos consumidores, para os quais nada parece ser bastante interessante. Eles não são apenas calmos, mas desistentes de tudo e de todos. A calma pode ser um resultado de força, coragem ou confiança. A apatia deles é o resultado de torpor ou de fraqueza. Esta apatia é quase uma doença. Não é a ela a que me refiro. Aqui falo de uma apatia que é sinônimo de indiferença. Com ela se dá, em vez de se ter estresse.

Sob o ponto de vista da filosofia estóica, a apatia a que me endereço é quase um estado desejável, se não se sofre com ela. É a liberdade de paixão, excitamento ou emoção. Epicuro nos recomendava essa falta de sentimento para pensarmos melhor, para vermos mais claramente as coisas e os comportamentos. Não é fácil.

O método científico, de certa forma, fica mais forte quando os pesquisadores são, neste sentido, apáticos aos fenômenos que observam. Shakespeare nos falava de algo parecido quando disse que não conseguia distinguir a honra em um olho e a morte no outro. Um desconhecido J. P. Senn sugeriu uma vez que nada preserva mais o corpo que não sentir o coração. Somos realmente muito fortes quando somos indiferentes aos pruridos das emoções primárias. Um tal de Ouida disse que a indiferença é o gigante invencível do mundo. Dessarte se torna samurai ou yogue, ascético e sábio.

Entretanto, o lado negativo da apatia, ou da indiferença, é que com a ausência de sentimento também desaparece o interesse. Este é a mola propulsora da busca de ser e de ter. Quando não buscamos, não mudamos nem fazemos mudar. A vida sem transformação em nós, e nas coisas que nos afetam, é inútil à sociedade. Aí está o principal problema da apatia, fora da investigação científica.

A apatia que gosto de ter é o desinteresse pelo que está aí acontecendo aos indivíduos e nos eventos; por aquilo que qualquer um é capaz de apanhar e ter; e por aquelas poucas coisas que muitos podem ter sem merecer. Gosto da apatia que nos faz aborrecidos com o comum, e que nos faz fugir para o extraordinário.

dez

17

TRAPAÇAS

Por Professor Alexandre

Trapaça é definida em bom português como artimanha, ardil e safadeza.

Independente dos motivos, quem trapaceia engana um inocente das intenções do trapaceador. Todo trapaceador precisa de uma vítima: velho, criança ou analfabeto. Ele pode estar encrustado em qualquer profissão. Em se lhe aparecendo a vítima, não resiste à oportunidade de trapacear. Orientar a vítima – nem pensar. O trapaceador precisa ganhar, como se desse ganho dependesse sua sobrevivencia. No domingo irá à missa e comungará como faz em todos. A consciencia é uma coisa, trapacear é outra. Trapacear é ganhar desonestamente sem que a vítima perceba como desonesto. Assim foi o dentista a quem pedi que fixasse uma prótese frouxa. Levou no mínimo uma hora fazendo o desnecessário em minha boca para depois me cobrar 50 reais. O trapaceiro de genética é assim: em se lhe dando a oportunidade, ele tira do incauto com artimanha, como precisando de uma hora ou mais para prender uma prótese de três dentes, que se soltou.

Por que precisam eles de trapacear para sobreviver? Quem trapaceia não quer somente sobreviver, quer ganhar mais rapidamente. Teme a pobreza que se aproxima veloz a cada trapaça fracassada. E quanto mais trapaceia, mais propenso ao fracasso. Trapaça é assim – ninguém sabe muito bem como pratica-la. Pode ser sempre surpreendida por alguém atento. Maldita gana em querer ganhar explorando a ignorancia (inda que suposta) do outro. Assim como nenhuma sabedoria é completa, nenhuma ignorancia é completa. Há sempre uma sinapse escondida atrás de cada sabedoria ou ignorancia. Esteja atento a essa conexão que não está brilhando nos olhos nem boiando nos lábios. Tenho aprendido que quando lutando contra outra inteligencia é melhor ser igorante que sabio. À ignorancia tudo se perdoa; mas à sabedoria tudo se acusa. Não pretenda ser sábio quando a sabedoria pode ser entendida como artimanha, ardil ou safadeza. O engano inteligente tem apenas a duração da inteligencia enganosa.

fracasso. Os inocentes estão ficando cada vez mais raros. Todo trapaceiro encontra outro que não queria trapacear. E aí, tudo pode acontecer.

dez

14

TENHO OBSERVADO QUE

Por Professor Alexandre

Deficiencia de zinco em mim é o rareamento do cabelo púbico.

Convenci-me de que o ritmo de envelhecimento não é fixo.

Sei que estou bem nutrido quando minhas unhas e cabelos brilham

Acredito que mantendo-me esbelto evito células cancerosas.

Uma ótima dieta contém um pouco de carne, leite, peixe ou ovo.

Verduras, não frutas, evitam perda de memória no envelhecimento.

Somos todos diferentes, não existe o ser humano típico.

Quem nasceu em outono vive mais que quem nasceu na primavera.

Bebês nascidos no inverno são mais aptos que os nascidos no verão

Mulheres me são mais atraentes quando ovulando.

O resveratrol do meu vinho é o anti-envelhecimento em que confio.

Sinto-me um animal cerebral quando me reconheço no espelho.

A acumulação de cálcio em minha pele me envelhece.

A melhor garantia de vida longa é a redução do peso do corpo.

Posso consumir 255 calorias diariamente.

Pouco sabemos de doenças quando nada sabemos do que comemos.

Das 7 habilidades cognitivas a que menos tenho é talento musical.

Inteligencia desenvolvida nos conduz mais rapidamente ao tédio.

A evolução intelectual não se preocupa com a felicidade humana.

Não sou velho, sou apenas mais velho que meus amigos.

Espero que fique quando morrer o pensamento de ter existido.

Paulo nunca conheceu Cristo, mas é responsável pelo Cristianismo.

Fora da Biblia não existe nenhuma prova da existencia de Jesus.

Talvez tenhamos um terço dos genes de tudo que existe no mundo.

Resveratrol do vinho o faz parecer um atleta sem treinamento.

dez

14

DEVEMO SER MELHORES QUE NORMAL?

Por Professor Alexandre

SER NORMAL NÃO BASTA…

Estamos todos vivendo a síndrome de Alice no País das Maravilhas: temos que correr duas vezes mais rápido para ficarmos no mesmo lugar. É a síndrome do avanço: quanto maior, melhor; quanto mais avançado, menos atrasado; quanto melhor, melhor… Tomamos vitaminas para nos prevenir contra a possível ausencia delas em nossos alimentos normais; compramos computadores para nos tornarmos atualizados com a informática – que é um avanço; fazemos arriscados exercícios para garantir vida mais longa; deitamos nos divãs dos psicanalistas, para nos tornarmos mais felizes conosco mesmos; entregamos nossos estresses aos psiquiatras, para nos tornarmos mais ajustados; trabalhamos feito desesperados para fugirmos da pobreza iminente; enganamo-nos com qualquer curso de pós-graduação, para não sermos tomados como apenas graduados; enfim, fazemos qualquer coisa para irmos além do normal, para que não arrisquemos a sermos simplesmente normais.

Para entender essa louca demanda ao “além do normal” foram criadas varidíssimas especializações em todas as profissões e até em ocupações do dia-a-dia. O normal já não é bom para ninguém que atravessou o Rubicon da pobreza. Embora o “normal” seja escrito e entendido da mesma forma em pelo menos oito idiomas (Inglês, Francês, Alemão, Italiano, Espanhol, Suiço, Iidiche, e Português) parece não ser suficiente para a maioria das pessoas afluentes – as que buscam ser cada vez menos pobres. Ninguém mais quer a simples normalidade. Os maduros e maduras querem parecer mais jovens e recorrem a cirurgiões plásticos; todos querem pelo menos um curso superior, ninguém quer ser técnico ou apenas mão-de-obra qualificada; todos querem ser desenvolvidos e “aggiornados” em todos os aspectos.

As doenças fisiológicas, apesar de muito exploradas por especialistas em todos os órgãos, entradas e saídas, já não distinguem bastante. As doenças emocionais e comportamentais, apesar de hodiernamente menos conhecidas, estão se tornando mais exploradas, levando nossas preocupações além do que se considerava normal. Hoje, os incômodos de nossas mães e avós são de natureza psiquiátrica; chamam-se desordens disfóricas premenstrual ou PMDD. Tornaram-se suficientemente psicossomáticas para serem consideradas patológicas. Com elas, a linha entre o normal e o anormal se torna obscura. Tudo são anormalidades para um dado especialista!

HIPOCONDRÍACOS PRODUZEM ESPECIALISTAS

Alguém é hipocondríaco quando sofre de hipocondria, naturalmente. É uma dessas doenças quase psicológicas, que já começa em sentido figurado. Etimologicamente, hipocondria quer dizer abaixo da costela ou do abdomen. Acreditava-se que a manifestação de hipocondria nascia dessa região. Todavia, na acepção mais comum, diz-se que alguém é hipocondríaco, quando vive num mundo de doenças imaginárias que acaba por dar ao indivíduo uma melancolia acentuada.

A fuga da normalidade e da busca de especialidades médicas estão associadas com essas manifestações de doenças imaginárias. Acredito que a hipocondria é fomentada pela disponibilidade de especializações médicas. Como era no passado, haveria menos hipocondríacos se houvesse menos especializações disponíveis e propagadas pela midia para curar doenças imaginarias. O que se propõe é que os avanços da medicina trazem benefícios para uns poucos e preocupações com doenças inexistentes para muitos. Isso é bom para os avanços experimentais da Medicina, para alguns médicos e para os abundantes planos de saúde, que parecem pouco satisfazerem médicos e pacientes.

É preciso um urgente controle na natalidade da profissão médica. Apesar de todos conhecidos drawbacks, ainda é a profissão mais buscada nos vestibulares. Eles estão abundantes, porém ainda atuam como se fossem avis rara. Os planos de saúde estão se tornando uma indústria, não em função de suas eficiencias, mas em função da abundancia de especialidades médicas. Quem paga o pato desse irrealismo são os clientes, que precisam ser pacientes para que suas doenças reais não sejam tratadas como imaginarias e que estas sejam encaixadas nos menus dos planos para que o dinheiro não acabe antes da vida.

SER DOENTE É PRECISO

Problemas psicológicos que no passado resolvíamos sozinhos, hoje são focos de atenção clínica, antes nos Estados Unidos, hoje muito no Brasil. Segundo Sheila M. Rothman (College of Physicians and Surgeons of Columbia University) esses focos de atenção incluem: problema relacional com o sócio; declínio cognitivo relacionado com idade; privação de entes queridos; problemas acadêmicos; problemas ocupacionais; e problemas fásicos da vida. A diferença entre paciente e pessoa está virtualmente desaparecendo. É a criatividade levada aos extremos. Se você não for paciente de algum especialista há algo errado com você ou está precisando descobrir.

Eu nunca tive doença de qualquer tipo. Portanto, me falta empirismo. Só posso falar de minhas experiencias vicárias. Mas, tenho observado que quanto mais a Medicina avança mais cria doenças, que mais criam fármacos ou remédios. Intervenções médicas são às vezes mais buscadas que curas às doenças, por irônico que pareça. A sociedade, como a Natureza, busca equilibrio, uma dentro do seu determinismo social e outra do seu biológico. Havendo médicos e especialistas em abundancia, é preciso descobrir novas doenças para mantê-los ocupados. A mesma lei se aplica à indústria farmacêutica: uma linha de produtos novos para cada nova doença.

Mas, o que nos preocupa nesta Trivia é principalmente o problema da normalidade. Quanto temos que considerar nossos achaques bastante normais para recorrermos a médicos disponíveis? Parece que quanto mais se descobre novas categorias de doenças menor a diferença entre cura e ampliação das necessidades para se ficar melhor. A Natureza, como se sabe, abomina o vácuo. Se insistirmos em querer ficar melhor que o normal teremos que ser eternos pacientes.

dez

7

ABELHANDO

Por Professor Alexandre

01. Apesar de algum tempo em Seminário, li apenas o Livro de São Marcos – o primeiro e o mais confiável guia à vida de Jesus. Os livros de Mateus e de Lucas foram escritos no mínimo uma década depois - cerca de 50 anos após a crucifixação.

02. Não sou ateísta, mas penso pouco na existencia de Deus, não por que tenho evidencia contra a existencia Dele, mas por que não tenho evidencia para envolvê-Lo em minha vida.

03. Tenho observado que minha capacidade de pensar está conectada com meu estômago. Quando tenho fome, meus pensamentos não avançam. Com muita fome entram em fuso.

04. Li que em meu cérebro há um nervo chamado “mirror neuron”. Ele reage às ações de outras pessoas. Quando vê os movimentos de outra, esse nervo pode sentir como se estivesse ele mesmo praticando a ação. Não tenho evidencia disso. Mas, aceito como plausível.

05. Frequentemente observo demoradamente partes do meu corpo. Se souber o que cada parte pode e não pode fazer, penso que viverei melhor.

06. Estou em crise existencial. A palavra crise sugere uma interrupção de um estado normal. Espero que passada a crise eu volte ao estado natural que um dia perdi, seguindo rastros que não fui eu quem fez.

07. Aposentado após 34 anos em salas-de-aula, não quis retornar para não me sentir um professor itinerante – a marca maior de professores menores.

08. Vivo hoje sem quatro dos meus cinco filhos. Suas idades estão no intervalo 16-42. Dispersão bastante grande para causar desbalanceamento na normalidade. Mais de 50% das famílias que conheço estão mais ou menos assim desbalanceadas. E como fica?

09. Nestes dois últimos anos de indesejável lazer venho observando o mercado de Jaraguá. Verifiquei que há pouca transparencia, média-baixa eficiencia; insuficiente produtividade de lojistas, e pouco controle de responsabilidade, principalmente com o cliente.

dez

7

TAEDIUM VITAE

Por Professor Alexandre

Meus quatrocentos dias de vida em Jaraguá, se braços tivessem, estariam nadando num mar de tédio. Não se vence o tedium assim como não se vence o mar, em se nadando nele. No tedium apenas se nada, o próprio bracejar é tedioso; infelizmente não se voa no tédio, pois este nem espaço é, mais propriamente é ausencia de espaço. É o próprio ennui: apatia, lassitude e langor. Quando você consegue fugir dele, você não o teve realmente. Qual depressão (sua alma irmã) não se foge do tédio, porque é agradável senti-lo; é como fumar continuamente o cigarro que pode matá-lo. O instinto que nos leva ao suicídio precisa ser melhor estudado.

Somente os que morrem antes dos trinta podem verdadeiramente dizer que jamais sentiram tedium de viver. É natural que o tédio seja casado com a longevidade e tenha a solidão como irmã. Entretanto, parece ser necessário que se esteja na cidade errada com as pessoas erradas para não ser capaz de fugir do tédio, antes que ele o engolfe no remanso.

Há legítimos casos de tedium que se tornam uma segunda natureza. Pessoas há que vivem entediadas. Tem a ver com o desenvolvimento mental. Quanto maior a pessoa o possui, mais propensão a perceber monotonia nos eventos. Entretanto, tedium tem outras motivações não cerebrais. O corpo fraco leva ao tedium tanto quanto a incapacidade física para fugir dele. Doentes incapazes de se movimentarem o sentem como um castigo.

Fora dessas circunstancias materiais, o tedium é principalmente mental. Fugir dele é uma obrigação que todos não-depressivos deveriam sentir ter. Quando não se está dominado por ele, na sua forma profunda, o tédio nos leva à análise de seus motivos. Se nem isso nos permite, o tedium é uma doença tão inútil quanto uma dor de cabeça que não nos larga nem quando nos divertimos.

Somente amigos e amigas de infancia e adolescencia ainda vivendo conosco, que guardamos no fundo de nosso coração, nos pode aliviar do tedium. Eles nos trazem o passado, em que não havia tédio. Tedium é uma quase-doença do presente. Felizmente, só no presente é possível sentir tédio.